Cotidiano

Cúpula do Clima é como reunião de condomínio

CPDOC JB

Por Gilberto Menezes Cortes

Não sei se o caro leitor já foi síndico de edifício ou frequenta reuniões de condomínio. Como costumavam ser marcadas para as 20 horas e as editorias de Economia fechavam muito tarde (no JB ou em O Globo, ou na Globonews saía do trabalho após as 22 horas), raramente participava (hoje os jornais fecham bem mais cedo). Há muitos anos, quando morava da Barão da Torre, cheguei mais cedo (não me lembro se estava em jornal ou fora) e fui abrir o bico. No que disse “A…”, o síndico, que estava louco para passar o bastão, emendou rápido “…ceito”. Fui síndico por dois anos. Interessante a gestão de recursos esparsos. Nos condomínios, as cotas condominiais são proporcionais à metragem das unidades. É um bom critério.

Mas se um apartamento de três quartos abriga cinco pessoas e no vizinho mora um casal de idosos, o gasto de água e de luz nas áreas comuns (com minuterias para as lâmpadas só acenderem com gente no corredor e o uso do elevador) será sempre maior pela família mais numerosa. A suposição de gasto maior de água/esgoto e luz gera disputa quando na cobertura com piscina mora família numerosa que costuma receber amigos nos fins de semana. Como só recentemente os prédios novos instalam com medidores individuais de água (como os relógios de luz e gás), o gasto de água/esgoto desigual (mas repartido por todos nas contas do condomínio) costuma ser motivo de desavenças. Que, não raro, viram brigas irreconciliáveis.

O Planeta Terra é a nossa Casa Comum, o condomínio habitado por mais de 7,8 bilhões de habitantes. Só a China tem 1,42 bilhão de habitantes. A Índia, 1,38 bilhão, os Estados Unidos, 331 milhões, a Indonésia, 273,5 milhões. Perdemos o 5º lugar para o Paquistão, que tem 220 milhões de habitantes contra os 212,5 milhões do Brasil. Logo atrás vem a Nigéria, com 206 milhõs. Se adotarmos o mesmo critério de metragem, os cinco maiores países em território são: Rússia (17 milhões de km2, a maior parte gelada ou com florestas de taiga), idem, idem no Canadá (9,9 milhões de km2). A China tem 9,59 milhões de km2, os Estados Unidos, 9,37 milhões de km2, e o Brasil, 8,5 milhões de km2. Seguem, pela ordem, Austrália (7,7 milhões de km2), Índia (3,28 milhões de km2), Argentina (2,78 milhões de km2). O Cazaquistão é o 9º em tamanho. A República Democrática do Congo é o 11º em área (2,34 milhões de km2). A Arábia Saudita vem a seguir, com 2,14 milhões de km2, a maior parte um areal. O México é o 13º (1,96 milhão de km2), seguido pela Indonésia (1,9 milhão de km2). E o nosso vizinho Peru é o 19º, com 1,23 milhão de km2. O africano Chade fecha o grupo dos 20, com 1,2 milhão de km2. Todos estão presentes na Cúpula do Clima, com “cotas condominiais” importantes.

Boa parte destes países têm grandes florestas tropicais que funcionam como uma espécie de “filtros” que ajudam a compensar as emissões de gás carbônico (CO2). A maior floresta do mundo é a Amazônica, que tem 60% de sua área no Brasil. Ela se espalha por outros oito países da América do Sul, com destaque para Peru e Colômbia, presentes na Cúpula. Na África, a maior floresta tropical é da República Democrática do Congo. Na Ásia, ela se estende pelas 17 mil ilhas da populosa Indonésia, mas também pela Malásia, Tailândia, Miamar e Vietnam. Há devastação sem controle destas florestas. Porém, como são de menor extensão, não chamam tanta atenção como no Brasil. O critério de misturar extensão territorial e população não basta para medir as emissões de CO2 e outros gases de efeito estufa. Há países com menor extensão territorial e/ou população que foram fortes emissores de CO2 ao longo da história por terem sido precursores da revolução industrial, iniciada no fim século XVIII (a máquina a vapor surge no Reino Unido em 1760), com grande uso do carvão mineral.

O site “Climate Watch” “contabiliza” ano a ano (não creio na precisão) os líderes na emissão (em toneladas de CO2 equivalente) desde 1850 até 2016. Com exceção da grande depressão nos Estados Unidos (1930-32) e o final da 2ª Guerra, em 1945, as emissões crescem continuamente. Há dois critérios. Um mede a “emissão de gases de efeito estufa em toneladas de CO2 equivalente, excluindo uso da terra e mudança no uso da terra”. Os Estados Unidos lideram as emissões até 2005, quando são ultrapassados pela China, que movimentou sua industrialização à base do carvão vegetal. Os países europeus, que destruíram suas florestas nesse mesmo período, se alternam na lista. O Reino Unido vem depois dos EUA. Alemanha, Índia, França, Rússia e Japão se alternam. A descoberta do petróleo como fonte de energia muda e acelera o quadro no século XX. Da América Latina, só o México estava entre os 20 maiores emissores. O Brasil, que só se industrializa para valer após a 2ª Guerra, entra para o grupo dos 10 maiores na 2ª metade dos anos de 1980. Em 2016, estaríamos em 6º lugar com 1.050 milhões de t (hoje seríamos o 7º). A China acumulava 12,7 bilhões de toneladas, seguido pelos EUA, com 6,570 bilhões de t. de CO2.

O peso do passivo ambiental

Mas a “Climate Watch” usa outro critério. Mais realista. A cada ano soma as emissões dos anos anteriores, mostrando o quanto cada país acumula de emissões ao longo do tempo. Voltando à comparação com o condomínio, considero a situação comparável a um problema que está afetando vários prédios da cidade: a indenização dos porteiros com longos anos de casa. Morador recente não quer assumir o passivo acumulado em anos anteriores à posse de imóvel no prédio. O correto é o rateio proporcional ao tempo em que cada qual é condômino (e, portanto, desfrutou dos serviços e se responsabilizou por contribuições do FGTS ao porteiro). É um argumento evocado pelos países em desenvolvimento. “Chegamos no fim da festa. Todos já consumiram à vontade, as comidas estavam no fim, a variedade de bebidas (quase quentes e com pouco gelo) é estreita. Aceitamos rachar a conta da limpeza do salão, mas não toda a despesa de comida, champanhe e uísque”.

Por esse critério, o Brasil nem o México figuram no grupo dos 10 maiores poluidores, liderado pelos EUA (577,778 bilhões de t. de CO2), seguido pela China (283,790 bilhões de t.), Rússia (184,224 bilhões), Índia (99,5 bilhões), Reino Unido (96,8 bilhões) e Japão (73,4 bilhões). França, Ucrânia (a antiga URSS preferia instalar usinas nucleares, como Chernobyl, fora do território russo) e Canadá completam o grupo. Mas não significa que ficamos isentos de responsabilidade. Tamanho de área e população não são critérios infalíveis. Países pequenos e muito intensivos em petróleo, como o Catar, Bahrein e Kuwait, pulariam para as primeiras posições em emissões; já países mais populosos, como China e Índia, nem estariam entre os dez maiores emissores. Dados do Banco Mundial mostram como uma métrica diferente muda a percepção do problema.

Uma limitação relevante dos gráficos interativos para a realidade brasileira é que eles não consideram um setor importante de emissões: o da mudança do uso da terra. Quando o desmatamento entra na conta, as emissões do Brasil aumentam. Uma parte significativa das emissões de gases de efeito estufa do Brasil são provenientes do desmatamento das nossas florestas. O próprio Acordo de Paris considera que todos os países têm responsabilidade em atuar para controlar as mudanças climáticas, levando em conta as diferentes realidades de cada sociedade.

Compromissos de novas metas

Em meio ao 2º ano de impacto da pandemia da Covid-19, que reduziu fortemente as emissões das fábricas, do tráfego de automóveis e sobretudo dos aviões, o governo americano, liderado pelo Democrata Joe Biden, decidiu como um de seus primeiros atos, voltar ao Acordo de Paris, (que o Republicano Trump abandonara), com metas mais ambiciosas que as de 2015.

As primeiras intenções dos países mostram compromissos com metas mais arrojadas pelos maiores poluidores históricos e recentes: O anfitrião do encontro virtual, Joe Biden pediu colaboração global contra crise climática e emissões de gases-estufa e confirmou que os EUA planejam reduzir suas emissões entre 50% e 52% até 2030 e atingir a neutralidade em carbono até em 2050. O primeiro ministro da China, Xi Jinping anunciou que a China atingirá pico de emissões de carbono antes de 2030 e que o país pretende se tornar neutro em carbono até 2060, avançando no uso de fontes de energia como a solar e a eólica. A chanceler da Alemanha, Ângela Merkel, e o presidente da França, Emannuel Macron louvaram as novas metas americanas e reafirmaram o foco europeu em transição energética. O Japão prometeu cortar 46% das emissões de gases-estufa até 2030 e se tornar neutro em carbono até 2050.

Amarrando o compromisso dos países ricos (e com elevado passivo ambiental) de compensar países em desenvolvimento e depositários das “florestas filtros”, EUA, Reino Unido, Noruega e um grupo de grandes multinacionais criaram a maior aliança global para proteger florestas. E pretendem mobilizar a quantia inicial de US$ 1 bilhão em financiamento inicial à proteção dos biomas. A iniciativa não se aplica somente ao Brasil, que nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro abriu mão dos recursos do Fundo Amazônia (providos pela Noruega e Alemanha), porque não queria compartilhar a fiscalização das ações ambientais na Amazônia com organizações não governamentais da sociedade civil. O Brasil terá de cumprir requisitos prévios (como redução de desmatamento) para fazer jus a créditos.

E pedidos de ajuda e compreensão

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro prometeu eliminar desmatamento ilegal até 2030 e atingir neutralidade climática até 2050, voltando às metas que o Brasil se comprometera em Paris, em 2015, no governo Dilma. Aproveitou o discurso e para tentar rebater com dados diferentes a saraivada de críticas que o país recebeu nos últimos dois anos. O país que abriu terras indígenas à exploração do garimpo e desativou órgãos ambientais, demitiu o chefe da Polícia Federal na Amazônia, porque cumprira o dever apreendendo e multando toras de madeiras nobres extraídas ilegalmente, prometeu dobrar o apoio aos órgãos ambientais, ficou na situação do credor relapso. Precisa limpar o passivo para ser merecedor de “novas linhas de crédito”. Ou seja, antes que os dados saiam dos sinais negativos, não terá ajuda.

Mas é interessante observar como se comportaram países em situação semelhante ao Brasil. O presidente do México, Manoel Lopes Obrador pediu que Biden financie o reflorestamento na América Central e sugeriu que os EUA facilitem a imigração de mexicanos que tenham participado da iniciativa. México pede que Biden financie reflorestamento na América Central

Presidente do país sugeriu ainda que os EUA facilitem a imigração de mexicanos que tenham participado da iniciativa. A Colômbia prometeu reduzir emissões em 51% até 2030 e pediu proteção da Amazônia. O presidente da Argentina, Alberto Fernández, anunciou novas medidas para combater a mudança climática, com o objetivo de que 30% da matriz energética do país seja renovável. País muito populoso e com elevado grau de pobreza, a Índia, segundo o primeiro ministro Narendra Modi disse que o foco do país será matriz energética limpa, mas ressaltou que “as emissões de gases de efeito-estufa na Índia são 60% inferiores à média global”, o que atribuiu ao estilo de vida indiano, “repleto de práticas tradicionais e sustentáveis”.

Ou seja, nem todos decidiram partir para o confronto. Mesmo recuando, o Brasil de Bolsonaro continuou tentando negar a realidade.

 

 

Fonte: https://www.jb.com.br/colunistas/o-outro-lado-da-moeda/2021/04/1029738-cupula-do-clima-e-como-reuniao-de-condominio.html

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