A proliferação de condomínios horizontais na Região Metropolitana de São Paulo servirá de base para um estudo acerca do mesmo perfil de agrupamentos em Natal. A intenção do Departamento de Políticas Públicas da UFRN é iniciar uma pesquisa sobre esse tipo de condomínios ainda este ano. Por isso, foi realizada uma palestra com a professora Camila D´Ottaviano, doutora no assunto pela USP. Além da palestra, a professora D´Ottaviano fez uma visita a vários pontos da cidade, acompanhada da professora Soraia Vidal e encontrou semelhanças entre a situação de São Paulo e Natal. A reportagem da TRIBUNA DO NORTE conversou com a professora a respeito do assunto.
O que exatamente significa o “fim do modelo centro rico versus periferia pobre”?
Nos anos 70 e 80, havia a consciência dessa dicotomia em São Paulo, onde havia um centro rico em contraste com uma periferia pobre. Nos últimos 10 anos, os pesquisadores começaram a argumentar que os condomínios fechados pipocando nas áreas mais periféricas significava uma mistura de ricos e pobres, porque esses condomínios normalmente são de luxo. Isso significaria o fim dessa dicotomia, já que pessoas de alto poder aquisitivo estariam se mudando para a periferia, provocando assim o fim dessa unidade: centro rico, periferia pobre. O tema da palestra, que é o mesmo do meu doutorado, é o mapeamento dos lançamentos imobiliários na Região Metropolitana de São Paulo nesse período para verificar se isso se sustenta. O que eu percebi é que isso é uma exceção. Na maioria das vezes, o que existe é uma reprodução do modelo de condomínios fechados para a média renda e a baixa renda nessas periferias, reproduzindo o padrão de poder aquisitivo que já existia. Na prática, aquela dicotomia ainda existe.
Isso interfere na visão de condomínios horizontais como “ilhas de prosperidade” para pessoas de alto poder aquisitivo?
Mesmo nos condomínios para baixa renda e média renda, as pessoas que moram ali têm uma condição superior àquelas que moram fora. Mas uma coisa que se coloca é que os condomínios têm todo aquele aparato de segurança, com guardas, equipamentos e etc. Na Zona Leste de São Paulo, por exemplo, os condomínios têm no máximo uma cerca elétrica, porque esse aparato tem um custo muito grande. Acredito que a população dessas faixas de renda se sinta atraída por uma questão de status e não de segurança. O mercado aproveita também as políticas de incentivo da Caixa Econômica Federal.
Existe um desejo por esse sentimento de comunidade, de trazer de volta a convivência na rua, com os vizinhos, mas dentro de um terreno fechado, teoricamente com mais segurança?
Existe essa ilusão. Mas não é uma coisa que seja verificável na prática. Engraçado que eu perguntava, na pesquisa de campo, se as pessoas se sentiam mais seguras. E elas diziam que não. Além disso, eu visitei esses locais em fins de semana, para ver a dinâmica. E não havia essa convivência em locais comuns. Estavam cada um lavando o seu carro, em casa, mas não necessariamente juntos. Não existia essa coisa de comunidade. Em um dos condomínios que eu visitei havia algumas crianças brincando, mas eu percebi que lá fora a molecada soltava pipa, brincava junto. Era algo bem mais perto de comunidade e elas pareciam mais felizes. A criança no condomínio fica alijada desse convívio da rua, que em alguns lugares ainda existe.
Fechar-se em um condomínio não traz de volta esse sentimento de comunidade?
Eu como urbanista acho que isso é um erro. As pessoas precisam voltar a conviver no espaço público. Precisamos lutar por isso porque a segurança é algo que precisa ser estendida também para o espaço público.
Aqui em Natal, por exemplo, praticamente não existem espaços públicos de convivência, a não ser a praia.
Durante o feriado (21 de abril), eu percorri com a professora Soraia Vidal, da UFRN, alguns locais, inclusive entrei em condomínios. Nós encontramos pessoas nas áreas comuns, mas era cada um curtindo a sua turma, os seus amigos. Não havia essa convivência. Não dá para achar que vai se reproduzir em um espaço privado algo que é típico do espaço público. A cidade que tem praia sai disparado na frente, porque a praia é um espaço de convívio e um espaço democrático. O caso aqui da Via Costeira é diferente porque o acesso é praticamente de carro, não dá pra ir a pé. Mas nas praias urbanas essa configuração ainda se mantém.
Quais as características dessa ocupação da periferia por condomínios horizontais?
Aqui, como na Região Metropolitana de São Paulo, há muitos condomínios pequenos na periferia, que não são para alto padrão. São pessoas que moram distante, passam provavelmente o dia inteiro na rua e estão alijadas desse convívio urbano. Elas moram longe de boa parte da infraestrutura disponível na cidade. Têm aquelas ruazinhas ermas, onde não tem nada, e lá na frente um condomínio. Custa caro também levar essa infraestrutura – rede de esgoto, energia, pavimentação – para esses locais mais distantes. Aqui eu também percebi uma concentração em determinados bairros, principalmente de Parnamirim. Deve haver alguma política de incentivo, pela quantidade que nós identificamos. Então, faz-se o condomínio e o poder público fica responsável pela via de acesso, pelos canos de esgoto e água.
A senhora acredita que essa falta de convivência nesses locais públicos acaba por incentivar uma certa violência social?
Sim, sem dúvidas. Primeiramente, não dá pra dizer que tem certo ou errado. Nós, latinos, temos a ideia de que é necessário a convivência de pessoas diferentes, de estratos sociais diferentes. Já para os anglo-saxões isso não faz tanto sentido. O que dá pra dizer é que quando não se cuida do espaço público ele fica muito mais perigoso. Uma praça, por exemplo, se ninguém freqüenta, é muito mais fácil ela ser ocupada por assaltantes, etc. Se a comunidade usa esse equipamento, isso traz uma idéia de segurança maior. É preciso voltar a ocupar esses espaços públicos de convivência.
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