RIO – Em um momento histórico, o Rio de Janeiro foi escolhido como a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. No Brasil, a torcida pelo Rio não foi apenas pelo legado esportivo do evento. A herança para a economia brasileira e, em especial, para o Rio de Janeiro poderá se manter mesmo após 2016. A economia fluminense vai girar com venda e aluguel de apartamentos nas vilas olímpicas, mais venda de combustíveis, vagas extras para porteiros e zeladores. Há mercado cativo até para as empresas que vão desenvolver sistemas de cronometragem. Venda de seguros e mais leitos em hospitais também farão parte do legado.
Como mostra estudo feito pela Fundação Instituto de Administração (FIA), da Universidade de São Paulo (USP), a pedido do Ministério do Esporte, os benefícios se espalha mesmo além dos setores geralmente mais citados, como turismo, comércio e construção civil. Serviços de informação, de intermediação financeira e seguros, serviços imobiliários e aluguel, serviços prestados a empresas, saúde e petróleo e gás estão entre os que também devem registrar incremento nos negócios mesmo depois da cerimônia de encerramento das Olimpíadas.
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O dossiê de candidatura do Rio prevê US$ 14,4 bilhões na estrutura do Comitê Organizador e em recursos públicos e privados para a infraestrutura dos Jogos. Diante desse valor, a pesquisa estima que a economia vai movimentar US$ 51,1 bilhões entre os anos de 2009 e 2027 por causa das Olimpíadas. Isso significa que, de cada dólar investido nos Jogos, a iniciativa privada vai gastar outros US$ 3,26.
A pesquisa indica ainda que devem ser criados dois milhões de vagas entre 2009 e 2027, sendo 120.822 pessoas por ano entre 2009 e 2016 e 130.970 vagas entre 2017 e 2027.
– Ao olhar para o período de dez anos após os Jogos, é possível confirmar que os benefícios se mantêm. É como se consolidássemos um novo patamar de empregos – destaca o secretário de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, Ricardo Leyser.
A pesquisa também mostrou que, a médio prazo, todo o gasto investido pelos governos municipal, estadual e federal na organização dos Jogos voltará em arrecadação tributária.
Rio responderá por mais da metade de ganhos econômicos
O Rio de Janeiro será responsável por 53% dos US$ 51,1 bilhões que serão movimentados até 2027 pela economia do país em função dos Jogos. O montante que será movimentado no Rio chegará a US$ 27,083 bilhões. Considerando apenas o período pós-Jogos, entre 2017 e 2027, a fatia do estado deve ser ainda maior, de 59,5%.
– As Olimpíadas vão permitir um rearranjo de todo o setor produtivo do Rio. O estado vai responder por metade dos ganhos, mas o impacto não é exclusivo, os efeitos dos Jogos beneficiam todo o país – explica o coordenador do estudo da FIA, Sergio Murashima.
Um dos setores mais beneficiados, o turismo também é o que vislumbra o horizonte mais longo para a herança dos Jogos . O presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio (SindRio), Alexandre Sampaio, destaca que a indústria hoteleira só vai construir os hotéis para os quais espera continuidade da demanda após o encerramento dos Jogos.
– A capacidade hoteleira do Rio deve ganhar entre oito e dez mil quartos até 2016. Só podemos nos comprometer com o que vemos possibilidade de se manter depois. Por isso, os empregos criados serão perenes – afirma.
Em reunião semana passada com órgãos de turismo, como Federação Nacional de Hotéis e Restaurantes e Confederação Nacional dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade (Contrathu), e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), foi estimado que serão geradas 20 mil vagas de trabalho no setor de turismo no Rio por causa das Olimpíadas.
Veja mais informações sobre o legado para o turismo do Rio
Confira os efeitos das Olimpíadas em diferentes setores na economia do Rio
Construção civil
Com grande força de geração de vagas, a construção civil estaria entre os principais beneficiados, ainda que no setor os ganhos se concentrem no período antes dos Jogos. Segundo o estudo da FIA, 40,3% do que será movimentado a mais pela economia entre 2009 e 2016 na Região Metropolitana do Rio vão para a área de construção.
No período pós-Jogos, no entanto, o setor perde participação. Isso ocorre por causa da base de comparação elevada, já que existem investimentos muito significativos nos anos anteriores.
– Os recursos da construção vão para a área de infraestrutura, transporte, hotelaria e os próprios centros esportivos. É um investimentos maciço – aponta o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio de Janeiro (Sinduscon-Rio), Roberto Kauffmann.
Ele estima que sejam gerados 420 empregos a cada R$ 10 milhões investidos em construção civil, incluindo os trabalhadores diretos, indiretos e os induzidos, que são os profissionais que vão trabalhar na operação e na manutenção dos bens construídos.
Serviços imobiliários e aluguel
Pela pesquisa encomendada pelo Ministério do Transporte, o setor de serviços imobiliários e aluguel tende a ter 20,1% de toda a movimentação da economia na década seguinte aos jogos, entre 2017 e 2027. Ganham destaque os negócios de compra, venda e aluguel dos apartamentos das vilas olímpicas – onde deve ser adotado o mesmo modelo dos Jogos Pan-Americanos, em que os apartamentos foram financiados pela Caixa Econômica Federal e vendidos para pessoas físicas.
– Os negócios são ainda maiores depois dos Jogos. Mesmo sendo vendidos antes, muitos são adquiridos para investimento, e a movimentação começa depois. Esse processo se mantém mais aquecido num primeiro momento, mas permanece depois – aponta o presidente da Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis (Abadi), Pedro Carsalade.
Ele destaca também que a tendência é de criação de novos núcleos em torno dos centros esportivos, o que valoriza os terrenos nessas regiões e estimula mais negócios.
– Também há incremento das operações de administração de condomínios, com toda a força de trabalho que envolve, como porteiros, zeladores, administradores de imóveis, entre outros – afirma.
Comércio
O comércio aposta no aumento do fluxo de turismo, tanto o de lazer quanto o de negócios, para garantir os dividendos das Olimpíadas no longo prazo.
– As Olimpíadas são o melhor “road show” para divulgar o Rio e trazer mais turismo para a cidade. Isso certamente beneficia o comércio no longo prazo. Além disso, a redução do custo de transporte por causa da melhoria de infraestrutura libera mais recursos no orçamento do trabalhador do Rio, o que incentiva o consumo – explica o economista da Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ) Gabriel Santini.
Mas os benefícios começam já na época pré-Jogos. Com o início das obras de infraestrutura, avança o emprego na construção civil, onde os trabalhadores têm grande tendência de consumir.
Serviços de informação
O setor de serviços de informação, que inclui a tecnologia de informação mas também o segmento de conteúdo, deve movimentar, entre 2009 e 2027, 9,6% do que a economia vai gerar a mais por causa das Olimpíadas, segundo a estimativa da pesquisa encomendada pelo Ministério do Transporte.
Na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e da Comunicação (Brasscom), Antonio Gil, o maior potencial de negócios para os Jogos de 2016 deve ser na área de serviços e de softwares.
– As Olimpíadas têm muitas modalidades esportivas, que exigem diferentes soluções para questões como cronometragem e medições dos atletas, por exemplo, e que podem ser usadas depois para outros segmentos ou outros mercados. Há muito potencial de negócios, e o Brasil é muito competitivo para disputar esses serviços – destaca Gil.
Antes disso, no entanto, ele destaca que são necessários investimentos em infraestrutura de rede para ampliar a abrangência da internet em banda larga no Brasil, trabalho que deverá ser feito antes da Copa de 2014.
– A infraestrutura de banda larga no país é deficiente, o custo é alta e a qualidade é inferior a de outros países. É preciso um investimento maciço antes da Copa – aponta.
Saúde
O setor de saúde também deve ser beneficiado. O presidente da Confederação Nacional de Saúde (CNS), José Carlos de Souza Abrahão, aposta em aumento no número de leitos e investimento em equipamentos hospitalares.
– Apenas na cidade do Rio, temos 266 hospitais, entre públicos e privados. Diante de um projeto da magnitude de Olimpíadas a saúde terá impacto. Devemos ter um aumento no número de leitos para atender a atletas, à equipe multidisciplinar e aos turistas previstos para o período. Mas esses investimentos serão mantidos depois – diz.
O médico afirma que o tema será incluído nos debates do Congresso Mundial de Hospitais, que será realizado em novembro na cidade.
Seguros
O setor de intermediação financeira e seguros também foi apontado entre os de maior destaque na geração de negócios com os Jogos. Em média, o setor deve responder sozinho por 6,5% dos US$ 51,1 bilhões estimados para o período entre 2009 e 2027.
– É claro que haverá um impacto positivo no setor de seguros e de várias formas. Num primeiro momento, há uma gama muito grande de seguros que poderá ser acionada, como seguro de vida e de acidentes pessoais de trabalhadores, saúde, de transportes, patrimoniais e até o seguro garantia, que garante a execução de obras dentro dos prazos estipulados, por exemplo – diz o presidente da Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e de Capitalização (Fenaseg), João Elisio Ferraz de Campos.
Durante as Olimpíadas, ganham destaque os seguros de pessoas e os seguros de responsabilidade civil e de garantia de realização dos espetáculos. Mas depois de encerrados os Jogos, o setor de seguros continua a se beneficiar, já que acompanha o movimento da economia como um todo.
Prestação de serviços a empresas
Quase 10% dos US$ 51,1 bilhões que serão movimentados pela economia em função das Olimpíadas até 2027 vão para o segmento de serviços prestados às empresas.
– A demanda por serviços a empresas só tende a aumentar nas diferentes áreas de atuação, como limpeza, vigilância e pessoal de portaria. Caso o Rio seja confirmado, a demanda só tende a aumentar em hotelaria, hospitais, condomínios comerciais e residenciais. O potencial é enorme – afirma o superintendente da Associação das Empresas Prestadoras de Serviço do Rio de Janeiro (Aeps-RJ), José de Alencar.
Petróleo e Gás
Até mesmo o setor de petróleo e gás natural aparece entre os beneficiados com a realização dos Jogos no Rio. Segundo o estudo da FIA, 2,9% de tudo o que for movimentado pela economia entre 2009 e 2027 caberá ao setor.
Analistas acreditam que o efeito será principalmente na área de distribuição de combustíveis, já que os Jogos aumentam o fluxo de transporte e de pessoas em função das Olimpíadas. O crescimento também se deve à expansão da economia como um todo, que se reflete em maior consumo de combustível.
Link: http://oglobo.globo.com/rio/rio2016/mat/2009/09/30/ganhos-para-economia-do-rio-vao-muito-alem-das-olimpiadas-envolvem-de-construcao-petroleo-767849419.asp