Depois de um projeto lançado em condomínios no Recife, Jaboatão iniciou campanha há um mês em dez edifícios. A quantidade coletada foi pequena: 0,18% do total gerado na cidade.
Abra o lixeiro de casa e olhe bem. A cada dez itens jogados fora, três ou quatro podem ser retirados para ganhar uma segunda vida. E, não por mágica, latas, garrafas e papéis que deixaram de ser úteis poderão se transformar em novos objetos. É uma ressuscitação que se chama reciclagem e tem a participação da sociedade como exigência fundamental. Isso significa que você precisa agir. Deixe de lado os mitos de vários recipientes e grandes operações e apenas assuma uma atitude cidadã. Ao separar as sobras de comida (lixo orgânico) do material reciclável (lixo seco), esses itens movimentam a economia e reduzem a quantidade de entulho nos aterros. Os adeptos garantem: é só transformar o hábito em rotina.
A iniciativa, entretanto, tem como principal desafio a mudança de comportamento. Talvez por isso, e pela demora de políticas públicas eficientes, o Recife e a Região Metropolitana contem com uma participação tão pequena. Em Jaboatão dos Guararapes, o projeto piloto de coleta seletiva oficial foi lançado, há um mês, em dez edifícios, em Piedade. A quantidade de lixo arrecadada foi irrisória, cerca de 0,18% do total gerado no município. Mas as perspectivas são positivas. Além da intenção de crescimento do programa, os moradores demonstraram boa receptividade e começaram a separar o lixo depois de visitas e palestras da equipe da Secretaria de Meio Ambiente. A prefeitura também forneceu lixeiros que foram instalados em cada andar dos “prédios ecológicos”.
Com isso, os moradores só precisaram separar o lixo em recipientes diferentes em casa e levar para o corredor nas lixeiras específicas. De lá, o zelador fica responsável pela entrega dos recicláveis aos catadores cadastrados no programa. Lição que o estudante Flávio Cabral, 12 anos, já sabia, mas admitiu ter recebido um estímulo depois da visita oficial. “Às vezes, eu esquecia e era mais difícil saber que o catador ia pegar direito. Agora, todo mundo está atento”, contou. Antes, ele lembra que era difícil convencer a irmã, que chegou há uma semana de um intercâmbio de seis meses nos Estados Unidos, onde foi “obrigada” a adotar o hábito. “Lá tinha que ser tudo separado, então me acostumei e não estranhei quando voltei”, disse Catherine Cabral, 18. A avó, Maria José Bento, destacou que gostou da separação porque acha que o lixo fica mais limpo.
No Recife, o programa foi implantado em 2002 e já passou por altos e baixos, tendo como principais obstáculos a falta de ação educativa e manutenção dos serviços. No início, a população levou algum tempo para acompanhar a proposta. Ano passado, depois da interrupção nos serviços por conta da contratação de novas empresas, o sistema registrou uma queda de 40% na participação. “Lixo” que começou a ser recuperado este ano depois de uma nova visitação porta a porta nos 45 bairros com coleta. Nos últimos meses, cerca de 340 toneladas de recicláveis foram arrecadadas por mês, o que representa a média de 0,6% do lixo total gerado na cidade (51 mil toneladas/mês), segundo dados da Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb).
Os números significam um desperdício quase total do que poderia ser aproveitado por empresas de reciclagem. A estimativa de 30% a 40% de resíduos recicláveis no lixo doméstico é calculada por especialistas de limpeza urbana com base nos produtos consumidos nas casas (veja o quadro). A situação não é melhor no quadro nacional, com raras exceções. O último Diagnóstico do Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos, feito pelo Ministério das Cidades, identificou que 56,9% das cidades brasileiras têm coleta seletiva. O que resultou em uma média de material reciclável de 3,1 quilos por habitante/ano, menos de 1,5% do que poderia ganhar nova vida. É muita coisa jogada fora.
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