Alvo de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara de Vereadores de Niterói, por conta dos frequentes ‘apagões’, a concessionária de energia Ampla continua provocando a indignação de milhares de famílias niteroienses e também de São Gonçalo. Crianças, adolescentes, adultos e idosos, de diferentes classes sociais, ainda sofrem as consequências da falta de energia. Nos dois municípios, desde o temporal de domingo, o problema afetou 18 bairros que ficaram, em média, 41 horas no escuro. Mas para moradores do Jardim Catarina e do Largo da Batalha, até o início da noite de terça-feira (16), luz somente de velas, contabilizando mais de 48 horas sem energia. O descaso gerou protestos que mobilizaram as polícias Civil e Militar.
Enquanto na maior parte do Jardim Catarina, em São Gonçalo, o problema da falta de luz fora resolvido, a Rua Turmalina (antiga 45), até o início da noite de ontem, ainda continuava sem energia. À luz de velas há mais de 48 horas, os moradores tentam amenizar os problemas, que vão desde comida estragada até falta de roupa limpa.
“Minha geladeira está vazia. Toda a compra que fiz foi perdida. Meu marido levou uma advertência porque não pôde ir trabalhar na segunda-feira porque não tinha roupa limpa. Até roupa suja temos que usar, pois não podemos ligar a bomba da caixa d`água”, contou a manicure Gleice Silva Dutra, de 23 anos, que mora no bairro com o marido e dois filhos, de três e seis anos.
O problema da falta de luz é ainda mais grave para a dona de casa Clementina Januário, 61. Seu marido, Davi Pinheiro, 58, sofreu um derrame há um ano e desde então precisa de cuidados especiais que requerem a utilização de energia elétrica.
“Meu marido está praticamente sem dormir com a falta do ventilador. Os mosquitos o atacam durante a noite, mas ele não tem como espantá-los, pois perdeu os movimentos. Constantemente temos que fazer nebulização nele, mas nesses últimos dias não podemos utilizar o aparelho, devido a falta de luz. Até trocar a fralda dele está difícil, temos que fazer tudo à luz de velas”, lamentou Clementina.
A dona de casa ainda conta que os ‘apagões’ são constantes desde dezembro do ano passado. “Desde o último Natal estamos com este problema. Sempre falta luz e demora horas para voltar. Já não sabemos mais o que fazer. Reclamar com a Ampla não adianta”.
Niterói – A demora da concessionária em reestabelecer a energia elétrica em vários bairros da cidade desde o temporal do último domingo revoltou os moradores da Rua Roberto Lira, no Largo da Batalha. Cerca de 50 pessoas realizaram um protesto, no fim da tarde de ontem, na Estrada da Cachoeira, que provocou um congestionamento na via. Munidos de cartazes, eles pediram o fim da agonia de 48 horas sem energia elétrica.
“A Ampla não faz nada para resolver o nosso problema. Agora eles nem atendem mais os nossos telefonemas. A falta de luz em nossa rua e em outras próximas é constante. Os moradores estão perdendo todos os alimentos que estão nas geladeiras”, reclamou o construtor Robson Gameiro, 40, que reside há 12 anos na Rua Roberto Lira.
Condomínio recorre a gerador
Um protesto, terça-feira (16) pela manhã, no Morro Tenente Ozório, no Fonseca, levou mais de 500 pessoas para as ruas. Para acalmar os ânimos dos moradores, policiais do 12ª BPM (Niterói) foram chamados, mas a manifestação só foi encerrada após a chegada dos agentes da 78ª DP (Fonseca), que prometeram entrar em contato com a Ampla, para viabilizar o reabastecimento das residências.
O aposentado João Batista Boechat, 59, sofre com um câncer no esôfago e, por recomendação médica, precisa tomar água gelada com gelo.
“Sinto muita dor e preciso do gelo para minimizar os efeitos da doença. Estamos há mais de 40 horas sem luz em casa. Está muito difícil ficar assim”, lamentou.
Em outro ponto da cidade, na Travessa Santo Antônio, em São Lourenço, cerca de 1.200 moradores, de dois blocos de apartamentos com 18 andares, só tiveram o abastecimento normalizado por volta das 11h30 de ontem, ficando 41 horas sem energia elétrica. Para minimizar os problemas, os síndicos dos dois prédios, Sandro Gomes Crespo e Rogério Paiva, optaram por alugar um gerador, que tem custo diário de R$ 1,5 mil.
O administrador do bloco 2, Marcus Vinícius Quinta da Fonseca, revelou que entrou diversas vezes em contato com a Ampla, mas não teve sucesso. “A empresa não nos deu nenhum retorno. Para não prejudicar os moradores que são cadeirantes resolvemos alugar os geradores para liberar um elevador e ligar a bomba, para abastecer os 204 apartamentos que ficaram sem água”.
Perigo para moradores
No loteamento novo do Jardim Catarina, na Rua Itambacuri, cerca de dez famílias também sofriam, na manhã de terça-feira (16), com a falta de luz. O transtorno maior foi causado por telhas que voaram de um terraço e arrebentaram a fiação do outro lado da rua. Parte da rede elétrica continuava solta na calçada e na casa de um vizinho, preocupando os moradores.
“Todo mundo aqui tem filhos e crianças em casa. Esses fios tombados e arrebentados são um perigo”, disse o comerciante Pedro Cesar Figueiredo, 40.
O morador também estava preocupado com os prejuízos na geladeira de casa e do estabelecimento que tem no seu quintal. “Além dos congelados que tenho em casa, as carnes e bebidas que vendo aqui estão todas estragadas. Já liguei para virem consertar, mas até agora é só promessa”, reclamou.
Dono da casa invadida pelas telhas, o aposentado Salvador Andrade Pimentel, 74, explicou o susto que ele e sua mulher viveram no último domingo. “Em mais de 30 anos morando aqui nunca vi nada igual. Por sorte, dois minutos antes das telhas caírem, minha esposa já havia entrado, voltando da casa do meu filho. O barulho foi grande”, contou.
Em nota, a concessionária Ampla informou que 80% dos problemas em São Gonçalo e Niterói foram resolvidos ainda na manhã de ontem, e garantiu que o abastecimento de energia seria normalizado até o fim do dia.
Protesto danifica carros da concessionária
Em São Gonçalo, Arsenal, Engenho Pequeno, Lindo Parque, Rio do Ouro e Vila Lage foram afetados pelo ‘apagão’, assim como o Jardim Catarina. No maior loteamento urbano da América Latina, a população, revoltada, ‘apreendeu’ três veículos de equipes da Ampla que pararam para almoçar em uma churrascaria do bairro Jardim Catarina, no início da tarde de terça-feira (16). Pneus de dois caminhões e um Fiat Uno da concessionária foram esvaziados, e a Rua Henrique Touquier interditada.
“Estou no prejuízo. A gente liga para eles e, por termos feito a manifestação, negam assistência imediata”, reclamou a comerciante Edna Costa Silva de Souza, de 37 anos.
A Ampla informou que normalizou o fornecimento de energia na Rua Henrique Touquier, na tarde de ontem. A distribuidora ressaltou que três equipes de uma outra área da empresa (que não é da emergência) estavam no local e os carros da companhia sofreram vandalismo.
“A Ampla entende que a energia é um serviço importante para a população, mas é contra qualquer tipo de vandalismo”, diz a nota.
* No Jardim Catarina, moradores da Rua Turmalina, como Davi e sua família, sofrem com a falta de luz há mais de 48h
* Gerador abasteceu prédios em Niterói que estavam sem luz e água (Foto: Roberto Moreyra) ::
* Veículos da Ampla ficaram danificados com o protesto
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