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A senhora do Lord

Fachada pálida e borrada guarda ainda alguma cor. Flores na janela do apartamento de Ivaneide Franco, 77, no segundo piso do antigo Lord Hotel, provocam contraste com o restante do edifício. Corredores, escadas, paredes e corrimões do anoso hotel de luxo dos anos 1950 ainda carregam sinais da sua outrora sofisticação. Pequenos enfeites no elevador e no balcão, embora enferrujados, teimam em mostrar o que ele já representou. Tempo e abandono seguiram juntos. O prédio agoniza. Por fim, chega-se bem ali no número 23, onde encontramos Ivaneide e os seus: o esposo Raimundo Marques, 77, o neto Humberto Mateus, 12, dois filhos solteiros e cinco cachorros – uma das cinco famílias resistentes do Edifício Philomeno Gomes, na área residencial do antigo Lord Hotel.

Milhares de pessoas passam todos os dias ali nos Cruzamentos das ruas 24 de maio e Liberato Barroso, número 555, vizinho do Theatro José de Alencar, sem se dar conta que ainda existe vida em seu interior. Mas tem, sim, vida pulsante e de resistências por detrás das cuidadas plantinhas da fachada de dona Ivaneide. Mais difícil ainda é imaginar que o prédio inaugurado em 1956 foi referência e já hospedou presidentes, personalidades como Dercy Gonçalves, Martinho da Vila, Henriqueta Brieba, Moreira da Silva e até a seleção brasileira de futebol. Funcionou como Lord Hotel até 1992 e, posteriormente, serviu de pousada. “Era um prédio bonito, cheio de gente! Não era ‘destiorado? como está. Antigamente, a gente tinha tudo, síndico, porteiro, mas as famílias foram saindo aos poucos”, lembra a dona de casa com sentimento de vago de tristeza doce.

Mas é só por um momento. Quem olha para Ivaneide, senhora pequena, passos curtos e de sorriso fácil, nem imagina sua persistência. Ela carrega nas palavras uma força vinda da história construída em mais de 20 anos que mora no prédio. Desde 1987, quando a família de cearenses voltou de um longo período de 30 anos em terras fluminenses. “Aqui é bom demais. É pertinho de tudo, resolvo o que for a pé. Não preciso de ônibus para ir ao médico e têm todos os bancos bem ao lado. Não sei se me acostumo em outro lugar. Sem falar na vista, veja como é bonita”, admira da sacada, sem se preocupar com os tapumes da praça José de Alencar. “A gente ainda pegou o hotel funcionando, bem no finalzinho. Eu fico imaginando como era antes, bem no começo. Aquelas pessoas elegantes, importantes passando por aqui”.

Apartamento espaçoso, de 185 metros quadrados, arejado e conservado dentro do possível em meio àquele mar de entulhos do resto do prédio. Três salas, três quartos, dois banheiros, cozinha, área de serviço e varanda que dona Ivaneide cuida todos os dias. Para completar, Ivaneide adora o Centro e sua calmaria de fim de semana, seu movimento frenético de segunda a sexta e tudo que pode assistir da varanda de casa. “Você precisava ter visto no dia do tal do arrastão. Era gente correndo pra todo canto, criança chorando. E parece que nem foi nada”.

O tom, embora celebre a morada, é de preocupação. Uma ordem de evacuação dada em 2000 pela Defesa civil municipal alertava para o risco de desabamento do edifício onde ainda funcionava a Pousada Fortaleza, aberta logo após o fim do Lord Hotel. Na época, havia 34 apartamentos ocupados e 20 desocupados e a parte residencial contava com 29 apartamentos habitados e cinco vazios. Um ano depois, o Governo do Estado desapropriou o prédio. O objetivo é dar continuidade às obras do Metrô de Fortaleza (Metrofor) na área, já que a estação da Lagoinha deve passar a 30 metros do edifício. A indenização prevista é de R$ 20,5 mil. Cinco famílias, entre elas a de Ivaneide, não aceitaram. “Onde é que eu compro uma casa decente por aqui por esse preço? A gente já é de idade, não dá para ficar muito longe dos lugares que a gente precisa ir. O (governador) Cid Gomes veio aqui na minha casa falar comigo. Prometeu uma casa boa, pertinho daqui. Estamos esperando, né?”, confia a mulher. “Isso é promessa de político”, retruca o esposo. Por ele, a família sairia logo, caso a indenização fosse revista, e procuraria um lugar melhor.

Ivaneide quer ficar. Por ela, quem quisesse poderia reformar ou restaurar o restante do prédio, depois ela voltaria para o seu apartamento. De lá, ela cuida e muito bem. O problema é o que está em volta. Não nega a ninguém seu sonho de ver seu prédio bonito, cheio de crianças como costumava ser.

Durante duas décadas, lembra, percorria muito mais o Centro da cidade. Ia até a Praça do Ferreira, fazia suas compras, sentava nos bancos para descansar. Hoje, a idade pede que ela admire o bairro pela janela. “O Centro antigamente era mais pobre, mas também não tinha essa desorganização. Tinha calçada para a gente andar, hoje os camelôs não deixam”, reclama. Queixa de quem quer ver isso mudar, simplesmente porque ama o espaço. “Só espero poder alcançar um Centro melhor. Vendo tudo da minha janela”. (Angélica Feitosa)

EMAIS

– De acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), a Prefeitura determinou o tombamento provisório do Lord Hotel, através do Decreto n° 11968, de 11 de janeiro de 2006, “tendo em vista o valor simbólico e histórico-cultural do referido imóvel para os munícipes de Fortaleza”, informou em nota. Ainda segundo a assessoria, o tombamento em está conformidade com o que dispõe a Legislação Municipal em vigor, ficando o bem provisoriamente tombado, fato que gera todos os efeitos inerentes ao tombamento definitivo, até a conclusão do processo administrativo de tombamento na forma da lei. As pesquisas para Instrução de Tombamento estão em fase conclusão. O processo será então submetido à apreciação do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Histórico e Cultural (COMPHIC).

– O assessor da presidência do Metrô de Fortaleza (Metrofor) informou que a instituição ainda espera a decisão judicial acerca das indenizações. Segundo ele, o valor de R$ 20,5 mil é estipulado pela empresa contratada pelo Metrofor especializada na avaliação de imóveis. Como a desapropriação data de 2001, ele não soube precisar o nome da empresa. Segundo ele, após esse processo, o objetivo do Governo do Estado, através da Secretaria de Infraestrutura, é de restauração do prédio.

Fonte: http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/878198.html

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